Ensino vs. Educação

Quando passei pelos bancos escolares, era uma época hoje tida como primitiva. Não tínhamos computadores. Calculadoras eram inacessíveis e proibidas pelos professores de matemática. Os professores usavam o “quadro-negro” com giz e não essas geringonças

Quando passei pelos bancos escolares, era uma época hoje tida como primitiva. Não tínhamos computadores. Calculadoras eram inacessíveis e proibidas pelos professores de matemática. Os professores usavam o “quadro-negro” com giz e não essas geringonças eletrônicas modernas de quadros digitais (com memória!).

 

Quando recebíamos algum texto era um polígrafo feito com um estêncil rodado num mimeógrafo a álcool. Tempos selvagens aqueles. Só que, baseados nos resultados dos testes de qualidade de ensino modernos (Enem incluído), constatamos uma triste realidade: os alunos atuais estão piores em qualidade de formação do que os do tempo do mimeógrafo. Recursos são escassos hoje, sim, mas antes eram muito mais…

 

O que mudou? Antigamente, há nem tanto tempo assim, os professores podiam ser divididos em dois grupos: professores e mestres. Os primeiros faziam da profissão um mero ganha-pão e/ou passatempo já que ou não queriam ou não sabiam fazer outra coisa. Os mestres, bem… estes eram de outra estirpe.

 

Eram gente entusiasmada pelo que fazia. Se sentiam úteis e sabiam seu papel na formação das pessoas que tinham ali na sua frente. Para eles ser professor era missão de vida. Inspiravam mais do que ensinavam. Eram verdadeiros conselheiros e conselheiras de vida. Frequentemente se tornavam terapeutas de plantão e confidentes solícitos. Ensinavam mais com o exemplo do que com as palavras. Eram congruentes, praticavam o que diziam e só diziam o que praticavam.

 

Cada vez mais, infelizmente, os mestres desaparecem. Os professores, sim, são abundantes. A cada concurso estes entram aos borbotões em todos os níveis do sistema de ensino. Os professores são entregadores de conteúdo. Costumam ensinar geografia, matemática, português, química, biologia… Se o aluno aprender, bom para ele, senão, problema dele.

Os professores acreditam que na cabeça de um aluno existe um abismal vazio maior do que o Universo e que eles, os professores, tentarão (quase sempre infrutiferamente) preencher com alguma quantidade de informação que, de outra forma, essas infelizes criaturas — os estudantes — nunca teriam acesso.

 

Os mestres, ao contrário, malucamente acreditam que os alunos já têm dentro deles todo o conhecimento que buscam e que necessitam para seus enfrentamentos na vida. Ao mestre cabe desafiá-los, questioná-los, provocá-los para que os próprios alunos promovam a ascensão dessa sabedoria escondida em seu inconsciente, tonando-se disponível (insight).

 

Um dos pais desse método magistral foi o sábio grego Sócrates. Sócrates dificilmente respondia a alguma pergunta direta de seus pupilos. Ao contrário, fazia a eles perguntas instigantes e deixava que eles encontrassem, sozinhos, as melhores respostas. Para Sócrates, sem mimeógrafo ou computador, pode-se ensinar algo a alguém ou educá-lo como aprender qualquer coisa. Você pode me dizer o que é mais valioso?

 

Carpediem por Nelson Spritzer diretor da consultoria Dolphin Tech e especialista em neurolinguística | Matéria publicada na edição 102 da Revista Versatille