Exposição: Unfinished  Conversations

JUSTAPONDO TRABALHOS SIGNIFICATIVOS DE ARTISTAS EMERGENTES E NO MEIO DA CARREIRA — TODOS FEITOS NA DÉCADA PASSADA E RECENTEMENTE ADQUIRIDOS PELO MUSEU DE ARTE MODERNA — A EXPOSIÇÃO ESTÁ EM CARTAZ ATÉ 30 DE JULHO

JONATHAS DE ANDRADE, THE UPRISING (O LEVANT E ), 2013

JUSTAPONDO TRABALHOS SIGNIFICATIVOS DE ARTISTAS EMERGENTES E NO MEIO DA CARREIRA — TODOS FEITOS NA DÉCADA PASSADA E RECENTEMENTE ADQUIRIDOS PELO MUSEU DE ARTE MODERNA — A EXPOSIÇÃO ESTÁ EM CARTAZ ATÉ 30 DE JULHO DE 2017

 

A mostra considera temas interligados de protesto social, o efeito da história ou identidade, e a linha de confronto entre verdade e ficção, por meio de trabalhos de mais de uma dúzia de artistas. O título se inspira nos três canais de vídeo da instalação Unfinished Conversations (2012), de John Akomfrah, que faz a crônica do trabalho do teórico cultural Stuart Hall.

 

“Vivemos um momento no qual é cada vez mais importante que as instituições — neste caso, um museu — esclareçam como a arte e os artistas vivem e participam do mundo ao redor deles”, disse Klaus Biesenbach, curador-chefe do MoMA. “Essa exposição oferece uma série de posições dos pontos de vista dos curadores. É nossa esperança que isso dê aos expectadores uma oportunidade de entrar no diálogo, e construir seus próprios significados baseados em suas experiências de vida e no que eles vêm. A conversa não pode ser encerrada sem o público”, esclarece.

 

A mostra apresenta uma gama internacional de artistas trabalhando em diversas mídias, explorando a ansiedade e agitação em todo o mundo e oferecendo uma reflexão crítica do momento presente. Do Cairo a São Petersburgo, de Haia ao Recife, alguns desses artistas observam e interpretam atos de violência estatal e ativismo. Outros entram em momentos históricos, reimaginando imagens do passado e reivindicando um lugar dentro deles. Ainda outros assumem debates contemporâneos, exibindo evidência de vigilância e censura governamental ou exibindo produtos da exploração do trabalho em suas obras. Juntos, esses artistas olham para trás para as tradições tanto dentro quanto além das artes visuais para imaginar possibilidades de um futuro incerto.

 

Quase todas as obras incluídas em Unfinished Conversations serão exibidas no MoMA pela primeira vez, começando com o trabalho da série de 2012 Return the World, de Adrián Villar Rojas (argentino, nascido em 1980). Combinando um vocabulário fossilizado com imagens naturalistas, as esculturas em barro não queimado e cimento de Villar Rojas parecem estar à beira da decomposição — e o título da série parece sugerir uma ligação com os efeitos negativos das atividades humanas na geologia do planeta Terra. O trabalho de Villar Rojas foca em processos de acumulação, deslocamento e entropia, sugerindo tanto uma paisagem pré-histórica quanto uma ruína pós-apocalíptica do futuro.

 

Diversos artistas na exposição tomam o protesto social e político como ponto de partida, alguns usando observação direta, enquanto outros procuram diferentes fontes para oferecer uma visão do seus entornos. A mostra inclui 12 desenhos de Anna Boghiguian (egípcia, nascida em 1946), criados em 2011, que fazem a crônica dos eventos dentro e fora do Tahrir Square, no Cairo, depois da revolução egípcia de 2011. Em outro trabalho, o artista Erik van Liehout (holandês, nascido em 1968) faz referências a novas imagens das manifestações que aconteceram em agosto de 2014, em Schilderswijk, um distrito da classe trabalhadora, na Holanda, quando manifestantes Pro-ISIS enfrentaram skinheads holandeses, bem como manifestantes antinacionalistas e antijihadistas.

 

Por outro lado, Wolfgang Tillmans (alemão, nascido em 1968) retrata o protesto por meio de um vocabulário abstrato na fotografia em grande escala Sendeschluss/ End of Broadcast I (2014). O artista capturou o pixel padrão de estática ou “chuvisco” de uma televisão em um quarto de hotel em São Petersburgo, evocando o corte de um sinal de televisão ou de notícia e oferecendo uma crítica ao controle estatal sobre a disseminação de notícias e informação num tempo em que ativistas e outros artistas estavam protestando contra o aparecimento de uma legislação antigay e as intervenções dos militares russos no Leste da Ucrânia. A fonte para o desenho de Andrea Bowers (americana, nascida em 1965), A Menace to Liberty — marcas permanentes em pedaços de caixas de papelão, típicos de cartazes de protesto —, é uma ilustração originalmente publicada no diário de Emma Goldman, Mother Earth, de 1914.

 

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Outros artistas ainda invocam ou revivem momentos históricos e iconografias, marcando os efeitos da história na identidade. O desenho monumental em três partes 40 Acres of Mules, de Kara Walker (americana, nascida em 1969), apresenta imagens do Stone Mountain Park, perto de Atlanta, e seu infame relevo de granito, retratando líderes do exército Confederado. O trabalho mostra os generais e seus cavalos, homens da Klan, a bandeira Confederada, figuras nuas e mulas em um cenário de redemoinho, quase apocalíptico, de dominação e degradação, cujo centro é a figura de um mártir negro masculino. As referências históricas são tratadas com um senso de ironia, e refletem a crítica e a aversão por essas homenagens Confederadas. Na série recente de esculturas Heritage Studies, de Iman Issa (egípcia, nascida em 1979), a artista também olha para a iconografia existente e explora a ressonância contemporânea de artefatos históricos para interrogar identidade, memória, e a assim chamada cultura material. Enquanto isso, na série de fotografias African Spirits, 208, Samuel Fosso (francês, nascido em Camarões, em 1962) se lança como um panteão de figuras políticas, intelectuais e culturais da África e a diáspora africana, recriando retratos famosos e canalizando as características distintas de Angela Davis, Patrice Lumumba e Malcom X, entre outros. Questões sobre a justaposição de fato e ficção estão presentes em diversos trabalhos da exposição, embora as abordagens do artista variem bastante.

 

A vídeo-instalação The Uprising (O Levante), de Jonathas de Andrade (brasileiro, nascido em 1982) retrata uma corrida de carroças puxadas por cavalos pelas das ruas do Recife. Embora a tradição tivesse sido proibida pela cidade, o artista driblou os regulamentos cívicos ao prover informação alternativa para as autoridades e os participantes da corrida. Os ‘hijinks’ de Andrade são bem diferentes em intenção daqueles das pinturas figurativas de Lynete Yiadom-Boakye (inglesa, nascida em 1977) — mas ambas têm raízes no poder da invenção. Enquanto as semelhanças que ela compõe possam parecer retratos de pessoas conhecidas, são caráteres ficcionais que aludem a especificidades de lugar e tempo. Na pintura Untitled (Intimate Suffering # 11), Kim Beom (coreana, nascida em 1963) cria uma charada visual, mapeando uma rede massiva de linhas que fazem um ziguezague através da tela.

 

O trabalho interroga a ideia da arte como uma atividade de lazer, desafiando o expectador a resolver esse colossal labirinto. Operando no entroncamento de política, poesia e pornografia, os desenhos de Paul Chan (americano, nascido em Hong Kong, em 1973) exploram ideias do corpo, desejo e voz. O trabalho na exposição pega linguagem de textos eróticos, reatribuindo trechos curtos a letras do alfabeto, e traduzindo as passagens originais para um novo contexto por criar a “font” digital. Apropriando-se de um conjunto muito diferente de textos e imagens, o Modded Server-Rack Display with Some Interpretations of David Darchicourt Designs for NSA Defense Intelligence (2015), de Simon Denny (neozelandês, nascido em 1982), incorpora material que fazia parte do vazamento de documentos confidenciais da NSA por Edward Snowden, em 2013, incluindo gráficos, tabelas e diagramas que eram parte de slides em Power-Point usados na comunicação interna. Por trazer esses materiais para o seu trabalho, Denny sugere que poderíamos entender melhor por que e como tais métodos visuais foram empregados pelo governo americano. Um grupo de trabalhos de 2016, por Cameron Rowland (americano, nascido em 1988), endereça efeitos reverberantes da escravidão transatlântica. As esculturas de Rowland são objetos do mundo real produzidos por prisioneiros, acompanhados por textos escritos pelo artista que conectam os objetos e seus produtores à história contínua da exploração do trabalho.

 

A exposição conclui com The Unfinished Conversation, de John Akomfrah (britânico, nascido em 1957), um membro-fundador da Black Audio Film Collective.

 

A instalação de três canais de vídeo traça a vida e o trabalho do teórico cultural Stuart Hall, que nasceu na Jamaica, chegou à Inglaterra como estudante, e continuou para se tornar uma figura influente da nova esquerda britânica e um intelectual público de vanguarda engajado em questões de diáspora, raça, etnia e identidade negra. A instalação de Akomfrah entrelaça a biografia de Hall com eventos-chaves nacionais e internacionais — tais como o enfraquecimento da classe trabalhadora no Reino Unido e o desarmamento nuclear —, ligando o pessoal com o histórico. Esse uso de filmes de arquivo e entrevistas originais evoca o próprio conceito de Hall de “transformação”, o que ele explica no vídeo: “Identidades são formadas no ponto instável onde a vida pessoal encontra a narrativa histórica. Identidade é uma conversa sempre inacabada.”

 

Feita pouco antes da morte de Hall, em 2014, a instalação é um testamento do impacto contínuo das ideias dos pensadores sobre artistas e instituições culturais.

 

Exposição por Raphael Andrade | Matéria publicada na edição 97 da Revista Versatille