Hormônios: Montanha – Russa Feminina

O MÉDICO GINECOLOGISTA E OBSTETRA, CESAR EDUARDO FERNANDES TIRA SUAS DÚVIDAS SOBRE COMO OS HORMÔNIOS INFLUENCIAM NO CORPO E NA SAÚDE DA MULHER   Quantas vezes você já ouviu que a mulher vive uma montanha-russa hormonal? Pois

O MÉDICO GINECOLOGISTA E OBSTETRA, CESAR EDUARDO FERNANDES TIRA SUAS DÚVIDAS SOBRE COMO OS HORMÔNIOS INFLUENCIAM NO CORPO E NA SAÚDE DA MULHER

 

Quantas vezes você já ouviu que a mulher vive uma montanha-russa hormonal? Pois essa é uma verdade, principalmente quando observamos o que acontece em cada etapa da sua vida. Para dar um panorama geral e esclarecer dúvidas nesse sentido, a Versatille foi atrás de uma das maiores referências no assunto, o médico ginecologista e obstetra, Cesar Eduardo Fernandes.

 

Ele também é professor titular de Ginecologia da Faculdade de Medicina do ABC e atual presidente da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Aqui o doutor reforça a importância de cuidar do corpo e da mente para viver com os hormônios em equilíbrio, também fala sobre a importância de acompanhamento médico e exames periódicos e muito mais. Confira!

 

VERSATILLE — Quais são as principais reclamações relacionadas aos hormônios que o doutor recebe no consultório?

CESAR FERNANDES — Elas são muitas, principalmente porque as mulheres passam por diferentes etapas na vida. Na puberdade, por exemplo, acontecem muitas alterações hormonais, sendo que a maioria das meninas tem a primeira menstruação entre 12 e 13 anos. Se acontecer depois ou antes disso, é preciso investigar o que está acontecendo e tomar medidas para regularizar isso.

Já na fase adulta, uma das principais reclamações são as irregularidades menstruais, que podem estar associadas a um quadro de estresse, ovários policísticos e obesidade. E, mais tarde, vem a menopausa, que é o término da função dos ovários. E a mulher vive um período de carência hormonal com vários impactos em seu corpo.

 

VERSATILLE — O doutor falou em estresse, um fato na vida da maioria das mulheres modernas. Ele realmente pode interferir nos hormônios?

CESAR — Sim. A mulher atual realiza muitas atividades. Ela trabalha fora e em casa, precisa exercer seu papel como esposa, como mãe… Esse nível de estresse muito pronunciado faz que elas passem a ter irregularidades menstruais ou até mesmo deixem de menstruar. Outras ainda podem ter alterações na produção dos óvulos e nas ovulações. Isso acontece porque a produção exacerbada de cortisol, que é liberado em situações de estresse, diminui a produção de FSH — um hormônio produzido pela glândula hipófise e que estimularia os ovários. Assim, a ovulação não acontece e ela pode ficar sem menstruar.

 

VERSATILLE — A obesidade também é algo que vem crescendo bastante no país. Então, esse fator também influencia nos hormônios?

CESAR — A mulher que ganha muito peso tem irregularidade na menstruação e não ovula. Mas, é importante que ela faça as consultas anuais para identificar se existe alguma outra causa. A síndrome do ovário policístico, por exemplo, além de fazer a mulher engordar, aumenta os níveis dos hormônios masculinos no corpo, causando acne, oleosidade na pele, crescimento de pelos no rosto, entre os seios e atrás das coxas.

Outra causa pode ser um quadro de hipotireioidismo, que é a diminuição na produção dos hormônios da tiroide, fazendo que a mulher também ganhe peso e deixe de ovular em alguns casos. Esses são alguns dos principais problemas hormonais no período reprodutivo, que também podem dificultar que essas mulheres engravidem, uma vez que comprometem a ovulação e, consequentemente, a fertilidade.

 

VERSATILLE — As mulheres modernas já estão mais habituadas ao uso das pílulas e a outros métodos contraceptivos ou ainda existe tabu em torno desse assunto?

CESAR — Elas estão mais abertas para o assunto, apesar de ainda existir alguns tabus. Mas, se fizessem uma pesquisa, cerca de 70% responderiam que preferem sangrar menos, a cada dois ou três meses, e, algumas, que desejariam nunca menstruar.

A boa notícia é que mulheres saudáveis podem perfeitamente fazer uso das pílulas sem qualquer prejuízo para a saúde. E o retorno da fertilidade se faz assim que ela interrompe o uso da medicação. Para se ter ideia, atualmente, as pílulas têm cerca de 1/10 da quantidade de hormônios em relação às primeiras que foram lançadas no ano de 1960, nos Estados Unidos.

É claro que não são inócuas e, por isso mesmo, é preciso que sejam indicadas por médicos. Afinal, não existe um único método que sirva para todas as mulheres. Quem é fumante, por exemplo, não pode usar pílula após os 35 anos de idade porque aumenta muito o risco de trombose. Portadoras de diabetes e hipertensas também devem ter cuidado.

 

VERSATILLE — Mas até que idade é permitido tomar a pílula?

CESAR — Por ser de baixa dose, podem ser usadas até o momento da transição para a menopausa por mulheres saudáveis. Mas, é sempre conveniente ouvir o médico de confiança. E é bom lembrar que, além das pílulas, também existem outros métodos contraceptivos, como o implante aplicado sob a pele, que deve ser trocado a cada três anos, o DIU, que tem validade de três ou cinco anos, e as injeções mensais ou que podem ser aplicadas a cada três meses.

 

VERSATILLE — Em relação à reposição hormonal na menopausa, qual é a posição do doutor?

CESAR — Considero a reposição hormonal um instrumento valioso a favor da saúde da mulher nessa etapa da vida, desde que não tenha qualquer contraindicação. Para se ter ideia, 80% delas apresentam sintomas que, muitas vezes, podem comprometer a qualidade de vida. E esse tratamento ajuda a reverter alguns deles, como as ondas de calor que prejudicam até o sono, deixando a mulher irritada e cansada. Também ajuda na conservação dos tecidos da vagina, que ressecam e perdem a elasticidade, causando dor e incômodo nas relações sexuais. E, ainda, atua na prevenção da osteoporose — perda de massa óssea, comum na menopausa que aumenta o risco de fraturas.

Apesar de algumas mulheres ainda temerem pelo câncer de mama, hoje se sabe que esse risco é mínimo com a reposição hormonal. Na verdade, é praticamente inexistente quando você seleciona adequadamente as pacientes, avalia o histórico familiar e as acompanha ao longo do tratamento com exames periódicos, como a mamografia.

Outro medo delas é o de engordar com a reposição hormonal. Mas, na verdade a menopausa faz as mulheres ganharem peso naturalmente. Elas passam a acumular uma gordura do tipo masculina, na região abdominal e visceral. E isso oferece maior risco para doenças cardiovasculares, como infarto do miocárdio e AVC, grandes responsáveis pela morte de mulheres nessa fase. Com a reposição, o que muda é que essa gordura fica distribuída nos quadris.

 

VERSATILLE — Quais as dicas que o doutor daria para as mulheres buscarem manter o equilíbrio de seus hormônios durante toda a vida?

CESAR — Minhas orientações são manter sempre uma alimentação variada para garantir microelementos essenciais ao organismo; ter hábitos saudáveis, como a prática de exercícios regularmente; dormir melhor e, para isso, ter um horário definido e com o número de horas suficientes para descansar; levar uma vida com condição emocional favorável, mantendo vínculos afetivos e amigos por perto; e, também, reduzir o estresse.

Isso é o que eu repito todos os dias em meu consultório e que vale muito mais do que qualquer tratamento medicamentoso. Se a pessoa ficar equilibrada emocional e organicamente, ela terá um funcionamento cerebral adequado. É ali que rege as glândulas e a produção de hormônios de maneira apropriada.

 

ESPECIAL WOMAN’S HEALTH por Diana Cortez | Matéria publicada na edição 97 da Revista Versatille