O cardápio

Esta coluna é dedicada aos bravos frequentadores de restaurantes, barzinhos, sorveterias e outras tentações que incluem cardápio/menu. Sobretudo os acompanhados de alguém que é indeciso. Não vale bufês tipo self service, o popular bufê livre.

Esta coluna é dedicada aos bravos frequentadores de restaurantes, barzinhos, sorveterias e outras tentações que incluem cardápio/menu. Sobretudo os acompanhados de alguém que é indeciso. Não vale bufês tipo self service, o popular bufê livre. Mesmo em tempos de smartphones, netbooks, iPads, etc, em que você pode baixar um aplicativo que ajuda a decidir o que é bom para você comer e em qual lugar, quem já comeu, quantos gostaram e quantos não gostaram, a decisão de qual o prato/comida segue sendo um insondável mistério para algumas criaturas.

 

Basta observar as pessoas a sua volta. Vá a um restaurante e observe. Pode ser que encontre alguém em sua própria mesa de repente fazendo caretas enquanto passa os olhos por todas as opções do cardápio. Lê tudo, de cabo a rabo. Depois que termina, vira-se para o sujeito ao lado e pergunta: “O que você vai querer?”. Eventualmente, faz um censo completo perguntando a todos os presentes. Por que faz isso? Para que precisa saber o que os outros vão querer? O que importa é o que ele quer, não é mesmo?

 

Assim que termina de perguntar a todos, torna a olhar o cardápio mais uma vez. Todinho, do início ao fim. Ai de você se só tiver um cardápio na mesa porque este cara vai demorar… Aí ele termina de ler pela segunda vez o cardápio e confessa: “Eu estou em dúvida entre o filé à parmigiana e o filé a cavalo”. Você pode pensar, isso vai ser fácil. Ele só tem duas escolhas de carne. Basta decidir por uma e pronto.

 

Que nada, o cara dá uma olhada na bandeja que um garçom traz para a mesa vizinha e pergunta: “O que é aquilo?”. “Camarão gratinado” responde o garçom. O cara faz uma careta horrível. Uma convulsão interna se abate sobre ele: “Acho que camarão pode ser uma boa pedida. Que tipo de camarões estes caras tem por aqui?”. E vai de novo ao cardápio…

 

Nestas horas você, que assiste a tudo isso impávido. Já decidiu o seu prato: um xis de qualquer coisa com ovo e queijo duplo porque você não aguenta mais e agora é mais fome do que desejo de saborear algo. Mas um guerreiro nunca se entrega. Não é que o cara larga o cardápio. Dá uma boa suspirada, levanta os olhos com expressão de vitória. Ele conseguiu dominar seus conflitos internos. Chegou ao veredito do mais difícil julgamento que se metera nos últimos tempos. Ele parecia que sabia o que queria comer!

 

O garçom se aproxima timidamente e pergunta: “O que vai ser hoje chefe?” . Nosso amigo olha bem o garçom nos olhos, parece que vai dizer o que de fato deseja, sem hesitações, quando subitamente lhe falta a voz, seus olhos rondam vagamente e, balbuciante ele pronuncia: “Moço, o que você me recomendaria?”

 

E não adianta brigar com ele. Ele vai se fazer de vitima. Acusar os outros de serem pessoas sem paciência. E pior: vai terminar provando o prato de todos os outros à mesa.

* Nelson Spritzer é médico e trainer em programação neurolinguística

 

Foto: Divulgação.