O Robin Hood de Mendoza

ESTRELA DE SUA GERAÇÃO, O ATREVIDO ARGENTINO ALEJANDRO VIGIL, DAS BODEGAS EL ENEMIGO E CATENA ZAPATA, PULVERIZA A CRENÇA DE QUE A REGIÃO DE MENDOZA SE RESUME AOS RÓTULOS DA UVA MALBEC QUE A CELEBRIZOU

ESTRELA DE SUA GERAÇÃO, O ATREVIDO ARGENTINO ALEJANDRO VIGIL, DAS BODEGAS EL ENEMIGO E CATENA ZAPATA, PULVERIZA A CRENÇA DE QUE A REGIÃO DE MENDOZA SE RESUME AOS RÓTULOS DA UVA MALBEC QUE A CELEBRIZOU MUNDO AFORA

 

Casta emblemática que virou símbolo e quase sinônimo de vinho argentino, a Malbec internacionalizou o terroir de Mendoza por moldar como nenhuma outra região do país vizinho, ou do Novo Mundo, rótulos de grande expressão dessa variedade. Hoje, com produção superlativa tanto em quantidade como em qualidade — a mais famosa região de vinhos argentina concentra a produção dos melhores exemplares elaborados a partir dessa variedade de uva, cuja origem é a região francesa de Cahors, localizada nas barbas de Bordeaux, mas que só ganharam notoriedade a partir dos anos 1990 do século passado, quando o produtor Nicolás Catena perpetrou os primeiros varietais de alta gama do país hermano, chamando a atenção de enófilos, críticos e revistas internacionais.

 

Não por acaso, em Mendoza — o maior e mais importante território vinícola argentino — concentra cerca de 1.500 bodegas e 80% da produção de vinhos do país do Prata, com produção oceânica anual de um bilhão de litros. Pespegada à cordilheira dos Andes, que se cobre permanentemente de neve como um Gulliver de branco sobre uma Lilliput de vales verdejantes, os mais de 160 mil hectares de vinhedos se espraiam aos pés das montanhas, fazendo ótimo uso tanto dos ventos que ali sopram incessantemente quanto das águas cristalinas do degelo do maciço andino e do rio Mendoza, que irrigam o solo de formação ora rochosa e pedregosa, ora calcário-argilosa, ora arenosa. Por sinal, esse conjunto de fatores é o principal trunfo, originando Malbecs e caldos tintos e brancos diferenciados e de personalidade própria.

 

Com altitudes que variam entre 600 metros, no sul, a 1.100 metros, no Valle do Uco, a geografia da vitivinicultura local se divide em cinco grandes sub-regiões — Norte, Leste, Rio Mendoza (ou Região Central), Vale de Uco e Sul — cada qual com características próprias de composição de solo e altitude, resultando em terroirs e vinhos distintos. Além da Malbec, que lhe deu fama planetária, as uvas brancas Torrontés, Sauvignon Blanc e Chardonnay e as tintas Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Bonarda hoje despontam como fonte de inspiração e matéria-prima preciosas, despertando o talento de produtores e enólogos argentinos, e a atenção do mercado para esses vinhos, desmistificando a crença de que a região se resume tão-somente aos rótulos da uva que a celebrizou.

 

Caso, por exemplo, do genial e irrequieto Alejandro Vigil, uma das principais estrelas de sua geração. Enólogo-chefe da Catena Zapata e dono da própria bodega-butique, a El Enemigo — o bem-sucedido projeto autoral, juntamente com Adriana Catena, filha caçula do lendário Nicolás Catena, cujos vinhos vêm amealhando uma série de prêmios e pontuações altíssimas em rankings internacionais —, esse atrevido Robin Hood de Mendoza molda rótulos outstanding elogiadíssimo, pulverizando paradigmas locais. Na primeira lista de 2017 da Wine Advocate, do todo-poderoso Robert Parker, a revista colocou a safra 2012 do Aleanna Gran Enemigo Gualtallary Single Vineyard (disponível no Brasil, ao preço de R$ 438,47, no portfólio da importadora Mistral; mistral.com.br), um vinho de corte com 85% Cabernet Franc mais 15% de Malbec no top one da lista dos 20 melhores rótulos argentinos.

 

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Vigil tem à sua disposição uma ampla gama das melhores vinhas da região pertencentes à família Catena. Elaborado a partir de uvas de vinhedo único, localizado a 1.470 metros de altitude em Gualtallary, Tupungato, com densidade de impressionantes 1.000 plantas por hectare e cuja colheita é realizada criteriosamente em sete etapas distintas, tais condições proporcionam uma concentração impressionante a esse supertinto capaz de envelhecer por muitos e muitos anos. Em boca, apresenta taninos selvagemente “nerviosos” e instigantes, com a profundidade e o punch demolidores de um verdadeiro campeão da taça.

 

Com produção anual minúscula, de pouco mais de 230 caixas, tem, segundo as palavras do crítico norte-americano, que lhe deu 98+, “a força e austeridade do Château Lafleur e a acidez de um Madeira antigo”.

 

Além desse icônico cult wine, a linha El Enemigo, uma espécie de alter-ego de Alejandro Vigil, que, curiosamente, trata cada vinho como um de seus filhos, inclui os varietais que levam a Malbec e a Cabernet Franc (uvas cuja devoção, aliás, está estampada, respectivamente, nos braços esquerdo e direito do enólogo-produtor, ao lado dos nomes do casal de filhos, Juan e Giuliana), além de um Bonarda, um raro Chardonnay fora da curva e, ainda, um instigante tinto de corte Syrah/Viognier — todos excepcionais e com a digital do ousado mago mendocino.

 

REQUINTE A BACO
Colher uvas em vinhedos verdejantes simetricamente desenhados aos pés do colosso andino e, de quebra, moldar o seu próprio vinho sob a monitoria do respeitado enólogo Santiago Achával, da bodega-butique Achaval-Ferrer (vinhos importados no Brasil pela Inovini de SP; inovini. com.br). Sonho desejado por muitos adoradores de Baco mas proporcionado a uns poucos privilegiados — a experiência, única, pode ser saboreada de forma plena — bem como literalmente na taça — no ultrarrequintado The Vines Resort & Spa de Mendoza, da rede The Leading Hotels of the World.

 

Também na lista de mordomias oferecidas por esse luxuoso refúgio mendocino de arquitetura arrojada e elegância rústica, charmosas e confortáveis habitações dotadas de terrazas, que são isoladas em silenciosas villas privativas. Caso, por exemplo, da Two Bedroom Deluxe Villa, suíte master cotada a 3.260 reais. A partir dali, se tem, por certo, o visual mais incrível da Cordilheira dos Andes, dos vales que o abraçam e dos 607 hectares de vinhas próprias, com cenários de cinema que podem ser percorridos a cavalo. A estadia baquiana ainda inclui, para a alegria dos fãs da boa mesa, a cozinha estrelada do chef argentino Francis Mallmann, que dispensa maiores apresentações, além de um moderno spa que disponibiliza ao hóspede-enófilo tratamentos revigorantes à base, por supuesto, do fermentado de uva. Salud!

 

Adega por Marco Merguizzo | Matéria publicada na edição 97 da Revista Versatille