Raf Simons

PARA O ESTILISTA, O DÉBUT DA CALVIN KLEIN SERÁ O MAIS RECENTE DE UMA SÉRIE DE MOMENTOS MEMORÁVEIS NOS SEUS 22 ANOS DE CARREIRA   O entusiasmo com o show de Calvin Klein durante a semana da

Raf Simons 03

PARA O ESTILISTA, O DÉBUT DA CALVIN KLEIN SERÁ O MAIS RECENTE DE UMA SÉRIE DE MOMENTOS MEMORÁVEIS NOS SEUS 22 ANOS DE CARREIRA

 

O entusiasmo com o show de Calvin Klein durante a semana da moda de Nova York tem crescido por, bem, meses. Isso porque Raf Simons — recém-diretor de criação da Calvin Klein — faltou na última estação para focar na reconstrução e na reestruturação da marca da multibilionária americana para uma nova era.

 

Originalmente treinado como designer industrial (ele vendia mobília antes de ir para a moda), Raf Simons estabeleceu sua empresa epônima de roupa masculina em 1995. Simons colheu avaliações delirantes quase imediatamente, emergindo num momento em que a direção da roupa masculina começou a atrair a atenção tanto do comércio varejista quanto da imprensa. Indo contra o look dominante da época (o assexuado Studio 54 estilo Lothario que caracterizou o espetacular renascimento Gucci de Tom Ford, que havia sido apagado em todos os outros lugares), Simons apresentou uma visão skinny e implacavelmente jovial. Houve rebelião, também: suas roupas eram coloridas, com tendência subjacente de subcultura — escolhidas das cenas musicais eletrônica e punk — que se provaram largamente influentes.

 

De fato, o terno skinny se tornou a forma dominante dos últimos anos 1990 e começo dos anos 2000. Embora a silhueta fosse um débito a Helmut Lang — um herói de Simons —, a juventude era toda de Simons. Ele acabara de fazer 30 anos quando apresentou a coleção Radioactivity outono/inverno de 1998, na qual os modelos, usando camisas vermelhas e gravatas pretas, homenageavam seus anos adolescentes e seu amor por Kraftwerk. “Não tinha nada a ver com moda, só com música,” disse Simons. De fato, os modelos pareciam ter acabado de sair da capa do The Man-Machine. Eles eram extremos, mas muito imitados — e não apenas pelos designers.

 

O estilo de Simons precedeu a estética fixada nos anos 1980 Eletroclash, da virada do milênio, por uns bons dois anos. Cada hipster estaria exibindo o mesmo traje com cabelos tipo Human League, penteados de lado, no verão de 2000 que viria.

 

Mesmo antes do calendário da moda ficar repleto de pré-coleções e desfiles, Simons era o campeão do ir com calma. “Eu tive uma relação amor-ódio com a moda. De um jeito, eu era, completamente, obcecado e atraído e amava a moda. De outro, eu a odiava”, revela. Aquela filosofia pode explicar uma decisão, de outro modo, surpreendente de baixar o ritmo do seu negócio. Mas ele manteve um escritório em Antuérpia, bem como sua equipe de criação. Queria fazer alguma coisa, mas não moda. (Ele explorou outras avenidas de criação por um ano, até mesmo dando aulas na Universidade de Artes Aplicadas em Viena e sendo editor convidado de um número da revista i-D — a qual, diz, ainda é o mais vendido.) Mas, ao deixar a moda, ele diz: “Foi quando eu senti falta dela, rapidamente”.

 

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Simons revelou que nunca escolheu, conscientemente, fazer o design de roupas masculinas — originalmente ele planejava criar uma linha com duas amigas, mas, quando elas desistiram, ele se concentrou em roupas masculinas porque provava as roupas em si mesmo. Ele também incluía modelos mulheres juntamente com os homens nos primeiros livros e vídeos do look — e suas roupas eram, às vezes, fotografadas em editoriais de moda feminina. As mulheres também compravam roupas masculinas da sua linha (e, ainda, compram). Mas, em 2006, ele tomou as rédeas na Jil Sander e debutou o primeiro desfile apenas com roupas femininas. Embora ele estivesse fazendo o design sob o rótulo Jil Sander, e, portanto, sentindo os desafios de uma outra estética, aquele desfile outono/inverno de 2006 ofereceu um vislumbre de como a sensibilidade de Simons poderia se traduzir em um guarda-roupa feminino completo.

 

Alguns anos depois daquela estreia limitada, Simons virou Jil Sander de cabeça para baixo e no avesso, ampliando o uso de cores e volumes. As roupas de sua coleção primavera-verão de 2011 eram techno-couture, feitas de tecidos sintéticos especialmente escolhidos para ter uma seleção fantástica de corantes, como laranja hazmat e rosa highlighter. As formas escolhidas de silhuetas de Cristóbal Balenciaga e Christian Dior da metade do século passado — como os vestidos-saco esvoaçantes e as saias peplum estufadas. A coleção teve um impacto tão alto que poderia ser medido na escala Richter da moda. Fez designers do mundo todo se mexerem para folhear livros de história e encorajou uma geração de mulheres a jogar fora o preto e experimentar cores alegres. Essa foi apenas a primeira de quatro coleções em que Simons faria o refinamento, definiria, e depois exploraria, temas similares de feminilidade em tons fluorescentes. Em retrospecto, essa fusão de silhuetas históricas com técnicas modernas e um senso de simplicidade contemporânea foi a declaração que definiu aquele momento da moda.

 

Simons sempre almejou suscitar emoções com o seu trabalho. Ele, certamente, fica emocionado com isso. Tem soluçado nos bastidores de seus desfiles — com felicidade, talvez, ou alívio, mas, obviamente, não com tristeza. Traça sua carreira na moda desde que testemunhou o desfile de Martin Margiela, apresentado em um playground infantil, em Paris, em 1990. Mesmo recordar-se disso arrebata-o de emoção. Ainda hoje, ele traz lágrimas nos olhos falando daquele momento. No desfile de primavera/verão de 2012 para Jil Sander, contudo, muitos na audiência tinham lágrimas nos olhos. Havia um rumor quente que Simons estava se mudando para o papel destacado de diretor artístico na Christian Dior e, por isso, a coleção tinha tanto a tristeza de uma despedida quanto a alegria de uma nova aventura. A modelo Kinga Razak — que fechou o desfile num vestido de coquetel de saia rodada, com um aceno de cabeça para a marca New Look, de Dior — caiu em pranto enquanto andava pela passarela durante o fechamento do desfile. Foi o derradeiro vigor emocional da moda. Efetivamente, a nomeação oficial de Simons na Dior foi anunciada apenas um mês depois.

 

Com a equipe de filmagem de Frederic Tscheng a reboque — gravando para o documentário-reportagem Dior e Eu —, Simons produziu sua primeira coleção Dior em incríveis oito semanas. Mais de um milhão de flores foram usadas como pano de fundo do desfile de Simons. Que era, acredite ou não, inspirado pela ideia do próprio Dior de “la femme fleur” — as saias rodadas, parecendo pétalas do New Look de 1947.

 

CONVERSA SOBRE O PODER DAS FLORES

Uma das peças-chave naquele primeiro desfile para Dior era um vestido de seda chiné entrelaçado com a recriação de uma obra de arte de pintura em spray do artista californiano contemporâneo Sterling Ruby. O artista e o designer são amigos.

 

As roupas foram entremeadas com gráficos reminiscentes do trabalho de ambos; alguns marcados como edições limitadas, e apresentavam tecidos criados por Ruby. Um casaco foi vendido por mais de 30 mil dólares — porém, considerando que o preço recorde para uma das peças de Ruby custou 1,7 milhão de dólares, em 2013, isso é quase uma pechincha.

 

Em junho de 2016, quase dois meses antes de ser anunciado como diretor de criação da Calvin Klein, Simons optou por apresentar sua linha em Florença. Juntamente com uma exposição de peças de arquivo, ele revelou uma coleção criada em parceria com a Fundação Robert Mapplethorpe, usando mais de 100 dos impressos mais recentes do fotógrafo. Foi uma curadoria — como uma galeria, apenas usando roupas em vez de paredes.

 

Nos bastidores, depois do desfile, Simons disse que as roupas eram como “molduras” para as pinturas. Mas os meninos pareciam autorretratos de Mapplethorpe. Simons estava de lábios selados sobre as notícias pendentes da CK ,mas, olhando para trás, agora, havia algo terrivelmente Calvin nos homens de Mapplethorpe. Talvez tenha sido a ideia sobre sexualidade masculina óbvia. Afinal, Klein foi o primeiro a criar o pinup masculino em roupas justas brancas. Há, também, alguma coisa toda americana sobre Mapplethorpe. Simons usou uma de suas imagens de uma bandeira com estrelas e listras rasgada e esfarrapada sobre um tanque simples. Sexualidade masculina encontrando o ídolo americano. Soa como um modelo muito bom para o combate do legado de Calvin Klein. De novo, se a carreira de Simons até agora ensinou alguma coisa, é esperar o inesperado.

 

Estilo por por Humberto Rodrigues | Matéria Publicada na edição 97 da Revista Versatille