Rei Kawakubo

ESTILISTA JAPONESA DE 74 ANOS DE IDADE, A SRTA. KAWAKUBO CRIOU A GRIFE COMME DES GARÇONS EM 1969. RECENTEMENTE FOI A SEGUNDA DESIGNER VIVA A RECEBER UM SHOW-SOLO NO MET GALA 2017

ESTILISTA JAPONESA DE 74 ANOS DE IDADE, A SRTA. KAWAKUBO CRIOU A GRIFE COMME DES GARÇONS EM 1969. RECENTEMENTE FOI A SEGUNDA DESIGNER VIVA A RECEBER UM SHOW-SOLO NO MET GALA 2017

 

Rotineiramente ela está em todas as listas dos “designers mais influentes do século 20” — e, agora, do século 21 —, principalmente porque recusa-se a aceitar qualquer das regras que governam o design normal de roupas: que roupas têm de ser lisonjeiras, por exemplo, ou que precisam ter cavas. Em vez disso, está interessada em desafiar nossas ideias sobre o que define beleza, identidade e gênero. Vai aonde a maioria dos designers têm medo de pisar, o que quer dizer, no domínio das roupas que parecem muito, mas muito esquisitas. (Uma vez, descrevendo uma coleção, ela disse que estava tentando “não fazer roupas”.) Mas a srta. Kawakubo pode, ainda, finalmente, livrar-nos da pergunta: Moda é arte?

 

Além disso, saiba de uma coisa: Ela também dirige um negócio internacional multimilionário cheio de um monte de coisas usáveis, e colabora regularmente com a Nike e a Speedo. Se você, alguma vez, vir alguém usando uma camiseta azul com listras brancas com um logo “google-eyed heart” no peito, é uma das dela. Bem como todos os mercados de rua do tipo Dover Street Market do mundo.

 

Especialista em história da arte France Grand foi quem mais bem definiu não só o “criador” mas, também, a criatura no livro Comme des Garçons, da editora Cosac & Naify. (…) Comme des Garçons é uma grife e um programa elaborados nos anos 1970, em Tóquio, desejados e criados pela inteligência visionária de Rei Kawakubo. Esse nome que soa francês, como o de um grupo de rock ou uma companhia de bailarinos, reivindica desde sua origem uma existência internacional e uma crença no trabalho coletivo: recusar-se a usar o nome do criador é distanciar-se do estatuto do artista que mantém relações ambíguas com a moda, que é indústria, ganha-pão, negócio — seu tempo é o presente ou o futuro imediato, não a eternidade.

 

É reivindicar a adesão ao trabalho mais do que o fascínio pelo personagem mistificador cuja grife basta para impor o ego, a intuição extra lúcida, como um rei impõe as mãos sobre seus súditos extasiados. Por que uma loja bodoir, um salão isolado, uma vitrine confidencial? Por que não o cimento da vida, os vidros da rua ou a iluminação em neon como os lugares públicos? Por que usar uma sacola de papel espelhado, de “falso luxo”, e não um envelope de papel kraft apenas carimbado? E por que usar um convite para desfile impresso em brístol para baile de debutantes? Isso não é você, nem nós, nem Paris nem Nova York, nem Tóquio hoje. O questionamento acontece de forma sistemática.

 

Mais uma vez, a resposta de Comme des Garçons é coletiva: Rei Kawakubo escolhe trabalhar com um arquiteto, um fotógrafo, um artista gráfico, um florista, ou mostrar suas roupas em verdadeiros personagens de nosso tempo, regenerando a cada etapa suas Commes des Garçons com seu olhar convidativo, que questiona, lucidamente, a própria marca, assim como a preguiça de nosso olhar, e que adere ao presente.Cada produção, da embalagem ao perfume, até as eventuais participações em espetáculos, passa a ser uma oportunidade para caminhar para frente, ou não existe. Avançar sem medo. Melhor: como um relógio que caminha levemente, questiona nosso uso do tempo, nosso olhar, nossa própria moda, de forma concreta.

 

Sabemos o quanto está fora de moda o brilhante, verniz de boas maneiras, ou bons materiais, simulacro de incorruptibilidade. Se o náilon e o poliéster são solicitados pelas qualidades que lhes são próprias, não é para criar falsas suavidades, sedas falsas, e, sim, sintéticos verdadeiros, que se dobram, se alisam, se colam, nos embalam e nos enrolam com um volume, um barulho, um tato, um aspecto, muito próprios. Uma nova Vênus emerge das ondas de polímeros.

 

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Essa dificuldade em atribuir uma definição verifica-se tanto para os materiais quanto para as formas, captadas e, depois, restituídas pela fotografia, como um pião capturado em pleno voo.

 

Veremos que a própria teoria do corte sofre essa parada na imagem. As formas: uma roupa cuja parte alta quase se tornou metade de um tailleur clássico, mas cuja parte baixa é o quê? — Basquet? — Aba? — ou, quem sabe, um cesto? Pouco importa. O que percebo é que está inflado com ar, dobrado sobre si mesmo, sem barra, como páginas duplamente costuradas dos cadernos japoneses, como um livro que não foi cortado, como broken down, broken English. Vimos roupas furadas. Ei-las, agora, cortadas, fraturadas. O famoso pulôver preto furado, muitas vezes considerado a bandeira negra da anarquia, seria, melhor dizendo, o emblema de uma elegância diferente: aquela, confiante, dos bailarinos em exercício, das fotos de Marylin usando um pulôver, de Jack Kerouac na estrada, de Pollock em seu ateliê, do free jazz, do Living Theatre, dos filmes de Jean-Luc Godard, daqueles que soltam os parafusos muito apertados das máquinas de tricotar ideias feitas. “O estilo é sempre um segredo”, segundo Flaubert. “É uma recordação encerrada no corpo do artista, reunido, duramente, pelo trabalho, e, carinhosamente, em suas imagens.”

 

As imagens circulam mais rápido do que as roupas, há intercâmbio entre um país e outro, e são concebidas junto, ou quase junto, com a coleção: chegamos ao sistema foto-roupa-foto. Além disso, a moda, como a foto, não pretende durar uma eternidade, mas guarda a capacidade de evocar o passado. Essa ligação constante com a fotografia por meio dos talentos atuantes, das formas, dos motivos, das cores, das paixões, não é ela também um valor de uso? A moda, como a fotografia, seria o único artesanato que nos resta?

 

Com efeito, quebrar o objeto mistificador não seria suficiente: outros materiais, outros cortes, a técnica Comme des Garçons mantém esse impulse e, também, produz um novo savoir-faire.

 

É sempre a coleção (convite, roupa, mala-direta, fotos, evento) que está no centro, que recoloca esta interrogação e afirma a coerência que salta aos olhos, mais forte a cada ano.

 

Desconsiderando a língua, a internacionalização das formas prossegue e dá as cartas culturais, Com a fotografia e, hoje, com a dança, Rei Kawakubo confronta o corpo em movimento com o espaço. Se um desfile deve transmitir, em 20 minutos, um concentrado de vontades, de ideias, se pode colocar o olhar para trabalhar e incitar ao devaneio, seu efeito se prolonga e se desenvolve nas lojas onde todas as coleções se encontram; Homem, Mulher; vestidos cotidianos tranquilos e gentis, camisas brancas e calças simples, ou estrelas misteriosas e complexas, vindas do desfile, aceitam, aqui deixar-se olhar, tocar — e, por que não, se deixar provar e, mais ainda, se houver afinidades? A entrada é livre.

 

ESTILO por Humberto Rodrigues | Matéria publicada na edição 98 da Revista Versatille