Réparation

É possível salvar o tempo? Cuidar das antigas trincas? Conectar os mundos? A Artista Géraldine Cario junta as pegadas de uma desorientação que ela conjura e trata com a tenacidade frágil de uma feiticeira condenada

É possível salvar o tempo? Cuidar das antigas trincas? Conectar os mundos? A Artista Géraldine Cario junta as pegadas de uma desorientação que ela conjura e trata com a tenacidade frágil de uma feiticeira condenada à doçura.

 

Marais vem se mantendo na top list como um dos bairros mais cools de Paris. Com grande concentração de museus e galerias e uma vida cultural sempre efervescente, é um deleite caminhar pelas suas ruas, sem contar os inúmeros points de moda e design que crescem diariamente por lá. Em cada ruela uma significativa surpresa. E foi mesmo uma experiência surpreendente a minha visita a um dos hotspots da arte contemporânea parisiense: a Galerie Laure Roynette.

 

Localizada na charmosa rue Torigny, 20, no coração do Marais, a galeria é capitaneada por Laure Roynette, que prioriza o trabalho de artistas que têm pesquisa autêntica e a estimulam questionando e encantando o mundo. São talentos multifacetados, que, segundo Laure, a ajudam a viver melhor, a entender o mundo e a incentivam a compartilhar os trabalhos. O espaço é destinado ao debate, às trocas, à descoberta de artistas, aos colecionadores, aos críticos, aos amigos, aos amantes e aos “flâneurs”; um espaço de vida, arte e discussões.

 

Minha ida à galeria foi para conhecer a nova produção de Géraldine Cario, uma das artistas representadas por Laure Roynette. A mostra de Géraldine — Réparation II — retrata o que há de mais íntimo e humano do que sabemos da grande História. Seu universo gira pelo mundo das fotografias, que, para Cario, são impregnadas de significado, de memórias, de instantes vividos. Sem se importar com o que vai encontrar, a sua obra busca continuar com esse diálogo, procura o que não foi dito, o que não conhecemos. Portanto, as instalações e as esculturas tentam nos aproximar do íntimo e sair da tensão da História e de seu lado desumano.

 

Sobre o trabalho de Geraldine escreveu o escritor francês Yannick Haenel, um dos fundadores da revisa literária Ligne de Risque: “Há cabeças com pregos, bússolas, alvos, chaves, fragmentos de mapas. Há quebra-cabeças de espelhos, caixas luminosas, após o abismo em preto e branco do tempo, belos rostos e mãos solitárias retomam a vida.

 

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Há um armário de farmácia cheio de velas ou uma fita métrica em forma de serpente como um anel de Saturno que atravessará a história do sofrimento.

 

“Não se trata de organizar a salvação dos objetos — não há sentimentalismo em sua arte —, mas de encontrar um lugar para que o tempo retorne. Esse lugar pode ser um muro, uma caixa de raios-x, um relógio. Géraldine fez ligações que são gestos espirituais. É a coisa mais simples do mundo, mais sútil, mais assustadora: uma invocação. E pergunto à Géraldine como ela nomeia o que monta? São objetos? – ‘Textos’, responde, ela.”

 

O tempo, a ausência e a perda também são temas recorrentes no trabalho de Cario, referências que ela atribui à admiração pelo trabalho do artista francês Christian Boltanski, que utiliza a arte e a memória dos ausentes para conservar a vida. Mas, diz que as suas são diferentes e a esses temas acrescenta a reparação. “Eu trabalho com a memória para preparar o futuro, com as feridas para curá-las, procuro mudar as perspectivas; uma força vital para encarar o que está por vir”, diz Cario.

 

Meu primeiro contato com o trabalho dessa artista foi por meio do SAM Art Projects — um programa de mecenato comandado pela brasileira, baseada em Paris, Sandra Hegedus, que organiza residências artísticas e faz curadoria de arte contemporânea para artistas não europeus.

 

As exposições de Géraldine são sempre um chamado à reflexão, sua universalidade e poesia podem evocar as memórias de um tempo qualquer e de qualquer um que esteja diante de sua arte. O privilégio de explorar e descobrir o novo trabalho de Cario na Galerie Laure Roynette foi um daqueles grandes prazeres que Paris proporciona.

 

A galeria, bastante intimista, é imperdível e a programação sempre convidativa. Se seu próximo destino é a Cidade Luz, anote na agenda, Galerie Laure Roynette. Simplesmente, “the place to be”.

 

ARTE por Giselle Padoin, Curadora e Pesquisadora de Moda | Matéria publicada na edição 102 da Revista Versatille